Memórias de 2019
dias que eu havia chegado aqui na Itália.
Esses dias me dei conta de que fazia um mês que eu tinha chegado à Itália. Parece que foi ontem, e, ao mesmo tempo, muitos anos atrás.
Então, quais são minhas impressões após um mês?
Primeiro de tudo, preciso esclarecer que não posso falar pela Itália inteira, porque, apesar de pequena, é uma nação muito diversa, cada região sendo diferente. Estamos morando numa cidade chamada Bérgamo, na região da Lombardia, a mesma onde fica Milão, e é uma cidade pouco maior que o bairro onde eu nasci, com menos habitantes do que a Tijuca, no Rio de Janeiro. E, mesmo assim, se não me engano, é a quarta maior cidade da Lombardia (imagine a menor).
Minha primeira impressão sobre a Itália foi o frio! Chegamos no final do inverno, mas pegamos temperaturas de 2 graus à noite e de manhã cedo, por exemplo. Se vestir como uma cebola, em camadas, foi essencial, e passar frio para nós, acostumados com temperaturas escaldantes o ano todo, foi mágico à sua maneira. E vocês acreditam que mesmo nessas temperaturas tão baixas você ainda vê na rua gente de perna de fora normalmente? Coragem.
No mês e (quase) meio que estamos aqui, a impressão que temos é de que as pessoas são muito cordiais. É “buongiorno” e “buona giornata” pra todo tipo de interação possível e imaginável, e podem não ser um povo extremamente amigável como o brasileiro, porém são educados. No entanto, não falam nada além de italiano, então não tenha muita esperança de lançar seu inglês e ser correspondido.
As pessoas aqui não têm muita paciência com quem não entende o que elas estão dizendo; porém, se notam que você está entendendo, tem um nível razoável de italiano e forem com a sua cara, a conversa se estende, porque eles não têm problema em jogar papo fora.
Outra coisa que estranhei bastante, mas acho o máximo, é que em tudo quanto é lugar você encontra... cachorros! Nas ruas, é comum ver os donos passeando com seus peludos, como em todo lugar do mundo, só que parece que não existe local onde eles não sejam bem-vindos: mercados, lojas, restaurantes (!)... Difícil ver uma placa dizendo que animais não são permitidos. É comum passar por fora de restaurantes e ver um cachorro lá dentro, deitado ao lado do dono. As ruas, graças a Deus, se mantêm razoavelmente limpas, uma vez que existem diversos postes com saquinhos para recolher os dejetos dos cães pela cidade. Mesmo assim, sempre tem aquele dono preguiçoso, infelizmente. Eu mesma já pisei com tudo em bosta de cachorro por aqui.
Algo que me deixou muito feliz na minha breve experiência por aqui também é o fato de que crianças são, de certo modo, como cachorros: tem lugar pra elas em todo canto. Ao menos eu me sinto muito bem-vinda com meu filho na maioria dos locais em que entro. No supermercado, já vi carrinhos para crianças empurrarem, nos centros comerciais sempre tem um espaço infantil (às vezes até bem grande e bacana), cada parque tem um espaço dedicado às crianças, nem que seja só um escorrega - mas é raro, geralmente tem brinquedo pra dar e vender. Nem preciso dizer que meu filho está se fazendo, né?
Apesar de corteses e educados, os italianos daqui também são apressados. Sabe aquela regra do metrô de São Paulo, se não for subir a escada rolante, ande para o lado? Sinto que essa regra existe aqui nas ruas. Se for andar devagar na calçada, que vá para o canto. Do contrário, sempre vai ter alguém bufando atrás de você querendo te ultrapassar, visto que as calçadas não são lá muito largas. E não pense que são os jovens impacientes não, muita gente acima dos 40 tem mais pressa que os mais novos.
Também preciso confessar que não acho o atendimento em restaurantes e estabelecimentos lá essas maravilhas, não. Em comparação ao Brasil, estão em pé de igualdade: tem lugares que são bons, e tem lugares em que o atendente imagina que está te fazendo um favor. E, quando se trata de funcionalismo público por aqui, isso se multiplica por 10. Mau humor e má vontade para dar e vender. Mas meu maior conselho é: vá bem informado (sempre), porque funcionários públicos italianos adoram brincar de pingue-pongue humano te enviando pra outro lugar pra você ter que voltar, e desarme os mal educados com a sua própria educação.
O que, para mim, até agora tem sido a maior dificuldade de adaptação?
Suspense.
O lixo!
Sim, o lixo.
Aqui o sistema de coleta de lixo é a coleta diferenciada, então os dias de pegar uma sacolona do Mundial e tacar tudo dentro acabaram.
Pra começar, os mercados cobram pela sacola plástica, então é bom você adquirir ao menos uma ecobag daquelas grandonas. Depois, cada local tem seu esquema de coleta de lixo e você tem que procurar saber como funciona onde você mora. Na cidade de Bérgamo, em geral, separamos o lixo em papel, plástico, orgânico, vidro e metal e indiferenciado.
Esteja pronto para as suas convicções de mundo se abalarem quando você não souber onde enfiar uma embalagem de biscoito.
Mas tudo bem, com o tempo você vai pegando a manha, separando a caixa de leite da tampa, diferenciando os guardanapos sujos de comida, dividindo as embalagens de kinder ovo... Aprende que o óleo vai pra uma central diferente, a roupa pra outra, remédios, pilhas... Até se deparar com o drama de saber que cada área tem dias de coleta diferentes e horários diferentes.
Aí você senta, põe a mão na testa e chora um pouco. Depois baixa o calendário anual da coleta de lixo do seu quartiere e reza pra estar fazendo certo.
Hoje mesmo me vi pedindo ajuda à vizinha de cima, implorando quase, pra mostrar onde colocar o lixo nesse prédio, já que é completamente diferente de onde estávamos antes. E, ao que parece, graças a Deus, é mais simples. Como eu mencionei sobre a cordialidade, ela nos ajudou com um sorriso no rosto e boa vontade. O que me lembrou de outro vizinho que, quando não sabíamos como trocar o nome da caixa de correio, foi até a loja da frente sem que pedíssemos nada pra descobrir como se fazia.
Alguns me perguntam: e aí, não está sentindo falta de nada do Brasil?
Pausa dramática para o meu suspiro resignado.
Estou sentindo muita, MUITA falta sim. Da comida!
O quêêê?!
Pois sim.
Tenha em mente que eu e meu marido não éramos adeptos a uma alimentação muito natural e saudável. Ifood era nosso melhor amigo.
E aqui?
Bem, o macarrão é delicioso, sim. A pizza é muito boa, sim. O sorvete é melhor que qualquer sorvete do Brasil (e eu nem sou muito fã de sorvete).
Mas arroz e feijão? Esquece. Não encontrei um arroz com gosto do nosso arroz até agora. Feijão já achei pra comprar, mas não sei mexer em panela de pressão. Até tem dos de latinha, porém são uma pálida imitação do feijão que comemos e adoramos no Brasil. Farofa? Risos.
A salada aqui é ótima, com todos os azeites e óleos e molhos que se pode encontrar no mercado, a preços ótimos, e estou até começando a comer salada por aqui - eu ouvi um coro de aleluias?
Só que se você acordar com desejo daquela pizza de frango com catupiry... Amigo, esquece. Aquele hambúrguer gourmet que parece uma torre? Sonha. Hot Philadelphia? Eles até vendem por aqui em restaurantes japoneses/chineses, mas o coração aperta com saudade de um Koni. Fanta laranja, uma delícia, né? Aqui é amarela aguada. Cheetos com ruffles pra comer enquanto vê um filme? Nem sei onde vende isso, se duvidar os ingredientes nem são permitidos aqui. Você vai ao mercado e vê uma prateleira com fantas de 5 cores diferentes... e todas são de laranja.
Enfim, pra quem cozinha, o mercado aqui é um sonho. Tem de tudo, os preços são muito acessíveis e a qualidade dos produtos, mesmo os mais baratos, é boa e decente. Pra quem não cozinha, boa sorte, sempre é hora de aprender, afinal macarrão não é tão difícil de cozinhar assim. De qualquer modo, em último caso, sempre vai ter uma loja de kebap turca ao seu alcance na rua mais próxima, que vende tudo a preços baixos e também é deliciosa.
Se eu tenho vontade de voltar pro Brasil agora?
Não. Acho que a segurança ao sair na rua, numa cidade em que a notícia mais impactante do dia é às vezes a morte de um senhor de 80 anos enquanto podava a própria árvore, não tem preço. Levar meu filho pra onde for e poder sacar meu celular e tirar uma foto, ou não precisar apressar o passo numa rua mais vazia, saber que a polícia atende aos chamados e ninguém morre em assalto, mesmo com toda a vontade de comer arroz e feijão, é uma sensação à qual já estou me apegando.

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