Comida na Itália
Comida italiana.
Aquele tópico em que as pessoas batem as mãozinhas e pensam: hum, delícia! Mesmo quem nunca veio aqui, já imagina aquele Spoleto maroto do fim de semana, aquela lasanha da avó, uma pizza autêntica...
Sinto dizer que o sonho acaba aí, meus amigos.
Aviso aos navegantes: este post será controverso e cheio de opiniões pessoais baseadas inteiramente no meu gosto e minha experiência. Qualquer discordância será ignorada por motivos de: gosto é que nem umbigo, cada um tem o seu.
Fevereiro de 2019, imaginem uma pessoa feliz de chegar à Itália, mais especificamente, Bérgamo, e empolgada com todas as possibilidades gastronômicas se desenrolando à sua frente. Cada esquina, uma trattoria, um restaurante, barzinho, um lugar para comer.
Lembro que chegamos ao nosso AirBnB, descansamos e fomos atrás de comida. Era uma terça-feira ensolarada e gelada, e nós, como bons brasileiros, saímos às 16h de casa para comer o nosso almoço. Andamos pelo nosso quarteirão e nos deparamos com a primeira realidade italiana:
Restaurante tem horário de almoço. Eles ficam abertos, em sua maioria, das 11h30 até às 15h, no máximo, e depois fecham e só vão reabrir para o menu do jantar - que, na maioria das vezes, por motivos que fogem à minha compreensão, custa o dobro do menu do almoço.
Centro de Bérgamo, próximos à Piazza Pontida, sem conhecer uma esquina sequer da cidade, às quase 17h da tarde, exaustos após mais de 20 horas viajando, fomos parar no lugar mais provável de estar sempre aberto, faça chuva o faça sol, de manhã à madrugada, sempre disposto a matar a fome dos mais esfomeados: o bom e velho kebab.
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| Eu comi o biryani e posso provar. |
Um dia depois da nossa primeira aventura kebabiana, já sabendo que tinha hora para almoçar, fomos parar num bistrô perto de casa. Pedi um macarrão com ragù (basicamente, carne moída) e meu marido um macarrão à carbonara, se não me engano. Meu filho, o fresco, ainda não comia la pasta e ganhou uma pizza depois. Quando os pratos chegaram à nossa mesa, lindos, decorados e cheirosos, veio a expectativa.
Tinha gosto de...
macarrão
com
carne...
moída!
Mamma mia!
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| Spoleto é melhor? Depende da velocidade com a qual você escolhe os ingredientes. |
Sem fogos de artifício, sem sair lágrimas dos olhos de apreciação.
Então, veio uma nova surpresa:
- Vocês querem água para beber? - ofereceu o garçom.
- Não. Tem o que aí? - quisemos saber.
- Ah, tem Coca-Cola, laranjada, água com gás, chá e vinho.
- Tá, me vê uma laranjada então.
(Quem vê até pensa que o italiano saiu fácil assim. A gente sonha, né.)
Eu fiquei empolgada, né. Adoro laranjada, suco de laranja. O nome é realmente parecido com português, aranciata, sendo arancia laranja em italiano. Meu marido pediu uma Coca.
Bem, vocês vão gostar de saber que laranjada aqui é refrigerante (pode ser Fanta, pode ser as marcas nacionais ou locais), e nem de longe tão doce quanto o que temos no Brasil. E a Coca é mais aguada, menos encorpada, nós dois refrigeranteiros percebemos isso nos primeiros goles.
Nem tudo é perfeito, né? Seguimos.
Nem tudo é perfeito, né? Seguimos.
Preciso confessar que a minha jornada gastronômica é bem limitada a Bérgamo, Milão e Verona. E é bem decepcionante. Comi pizza de pizzaria tipicamente napolitana, macarrão da nonna (são melhores sim) e comida da padaria do seu Giuseppe. E a única comida que me fez ficar em êxtase foi a parmigiana di melanzane, ou lasanha de berinjela para os não-íntimos, da padaria do seu Giu.
Não que a comida seja ruim. Não é ruim mesmo! É boa. Só que é uma comida real, na raça. É o gosto pelo gosto. Sem tanta firula, sem entupir de temperos, de sal. No Brasil, estamos acostumados a misturar a coisa toda; quanto mais, melhor. Aqui, é carne num prato, massa no outro e salada num terceiro. É cada sabor no seu quadrado. É o país em que as pessoas comem o almoço bebendo água, pra realçar o sabor do alimento.
E a cultura se evidencia extremamente na forma como se reflete no paladar. Por exemplo, você tem bebidas que são tão amargas que parece que já saíram da validade (como o tal crodino e os sucos naturais de laranja de caixinha). Mas são assim porque as pessoas compram, bebem e gostam. Já bebi até uma pseudo-Coca vegana-natureba que era mais amarga que minhas expectativas de enriquecer antes do século XXII, e a minha amiga tomando a dela amarradona. É que nem a liquirizia, só quem já provou sabe a desgraça que é. E, acreditem em mim, tem liquirizia por todos os cantos: é bala de liquirizia, pirulito de liquirizia, doce de liquirizia, até remédio dessa maravilha tem. Pois é, o xarope infantil tem gosto de mel e própolis, o adulto ganha de brinde mel, própolis e... liquirizia. E as pessoas gostam, acho que deve ser o equivalente à bolinha de gordura hidrogenada brasileira na mente do italiano; é ruim, mas tem gostinho de infância.
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| A aparência é melhor do que o gosto. |
Entrando no quesito doce, aliás, o buraco é mais embaixo. A terra da pasticceria não poderia decepcionar em termos de apresentação. Os doces são lindos, mas lindos mesmo, aquelas vitrines de dar inveja ao mais fino Lecadô, e te deixam empolgado para provar um por um. Não tive a oportunidade de provar de tudo, admito, fui mais atrás dos salgados, no final das contas, mas os doces que tive a chance de saborear...
Foram uma tristeza.
Ou tinham gosto de álcool - errou feio, errou rude, erro de amador. Ou não eram macios - sabe aquele doce que você morde esperando nham mas faz crec e desmantela todo? Ou pareciam pálidas imitações dos doces que existem e eu amo no meu Brasil varonil. E os bolos? Alguém exporta a dona Alzira para ontem, por favor. As tortas de aniversário infantil são de sofrer também: meio feitas de sorvete, as pessoas colocam para congelar e servem aquilo duro, difícil de cortar e congelado, quebra-dente e congela-cérebro. Isso tudo com refrigerante quente, e eu realmente precisaria escrever um capítulo à parte só para as festinhas infantis.
Enfim, acho que deu para entender que, se tem uma coisa da qual sinto falta, essa coisa é a comida brasileira. Mais uma vez, ressalto: é minha preferência e, sim, a gastronomia italiana é incrível à sua própria maneira. Mas que é um gosto adquirido, é.
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| Essa lasanha representou a raça. Tava boa mesmo. Não lembro o nome do restaurante, mas foi na Cidade Alta. |





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